Por que continuar a orar pelo Sudão?

Caros leitores!

Em conversa com o pastor Mário Freitas obtive as seguintes informações sobre o Sudão.

Retornei do Sudão no último domingo, 8/4 – exatamente a data programada para a instalação da lei presidencial que estabelece a saída dos cristãos sul-sudaneses do país. Como passei todo o meu tempo no país reunido com pastores e líderes cristãos, eles sugeriram que eu saísse de lá até domingo, justamente por não saberem como o futuro os trataria. Inicialmente, eu ficaria lá até 11/4.

Em geral, a guerra tem marcado regiões específicas do Sudão, principalmente as conhecidas regiões de Darfur e Nuba Mountains. A capital Khartoum, ao norte, sempre foi refúgio seguro para os perseguidos e os sulistas, embora a cidade seja majoritariamente islâmica. Agora, a coisa vai se complicando, principalmente quando ouvimos diretamente os líderes da igreja no Sudão.

O sul do Sudão é considerado majoritariamente cristão. Há muitas etnias tribais, animistas, mas principalmente nas maiores concentrações urbanas, como Juba e Malakal, a maioria da população é composta de cristãos. Igrejas históricas, como a Anglicana e a Presbiteriana, se estabeleceram na região há muitas décadas. Embora em muitos casos o cristianismo seja nominal, a fé desses irmãos tem fundamentado as guerras e dissensões com o norte islâmico no decorrer dos anos.

Em 9/7/2011 ocorreu a independência oficial do Sudão do Sul. Pouco antes disso, o presidente Omar Al Bashir já declarara no norte a Sharia – a lei de islamização total do país. Segundo ele, o país seria marcado por uma só língua, descartando naturalmente os idiomas tribais que os sulistas trouxeram, e uma só religião, descartando naturalmente qualquer credo que não fosse o Islam.

Abaixo, seguem alguns pontos que explicam o quadro recente de perseguição dos sulistas residentes no norte. São razões pelas quais a igreja ocidental e a comunidade internacional devem permanecer atentas, e continuar orando e pressionando acerca da injustiça que tem impactado o Sudão.

1. O histórico do presidente Omar Al Bashir

O presidente do Sudão está há 19 anos à frente do país. Ele é responsabilizado diretamente pela morte de mais de 300 mil pessoas, principalmente na região de Darfur. Tendo declarado recentemente a Sharia no país, não há qualquer razão para crer que ele estabelecerá sua vontade na nação com menor truculência dessa vez. Já foi emitida pela comunidade internacional a ordem de prisão de Al Bashir, por conta dos crimes contra a humanidade.

2. O histórico de perseguição

A Missão Portas Abertas tem classificado a perseguição religiosa em diversos países do mundo, através de pesquisa sólida e critérios razoáveis. O Sudão tem subido no ranking. Atualmente, ele ocupa a posição de 16º país com o maior índice de perseguição religiosa no mundo. No entanto, especialistas afirmam que os últimos acontecimentos relacionados à emancipação do sul farão com que, nos próximos anos, o Sudão esteja entre os cinco países onde os cristãos são mais perseguidos.

3. O formato geral da perseguição

Alguns consideram que haja perseguição somente quando há homicídios em série, bombardeios e prisões com torturas. A perseguição religiosa ocorre em vários graus. No caso do Sudão, ela é severa. Mas apontar para 8/4 como sendo um dia crucial no que tange à perseguição não significa afirmar que todos os cristãos estariam mortos no dia seguinte. Quero, portanto, narrar algumas histórias verídicas.

O pastor M.A. é um influente líder cristãos no país. Ele nasceu no norte, em Omdurman, grande Khartoum. No entanto, seus pais são de etnia do sul. Nesse momento, ele tenta junto ao governo conseguir sua documentação para permanecer naquele que sempre foi seu país. Como é pastor em tempo integral, o governo não reconhece a validade de sua permanência, visto que ele não possui o que possa ser considerado um emprego. Assim, precisa deixar o país, e não sabe o que vai acontecer. O que fará ele no sul do Sudão, onde preços são exorbitantemente maiores que no norte, devido à concorrência da migração de centenas de milhares? Como abandonar sua igreja, sua vida, naquela que sempre foi a sua casa? Eis a perseguição.

Um segundo caso é o de M.E. Esse líder cristão não é do sul – ele é do norte. É fisicamente diferente dos sulistas, por ser de origem árabe, o que é comum no norte. M.E. é o que chamamos MBB (Muslim background believer) – um cristão de origem islâmica. Sua conversão constitui em crime: é proibido deixar o Islam na maioria dos países majoritariamente muçulmanos. Agora, ele não teria como se estabelecer no sul, simplesmente por não ser de lá. No norte, ele não consegue emprego, e não tem contato com seus pais, líderes islâmicos, desde a sua conversão em 1994. A própria família o perseguia. Em Khartoum, sem os cristãos do sul, os MBBs seriam a única força cristã. O grupo, no entanto, é pequeno, necessariamente pobre, e já tem sofrido represálias da parte dos muçulmanos, que não entendem porque eles vão permanecer no país. Num mercado em Khartoum, M.E. ouviu na última semana alguém gritar: “por que você não vai embora com os outros porcos?”. Alguém que conhece sua identidade cristã. Sua vida pode estar em perigo.

Surgem questionamentos, como: no norte, ser cristão e ser sulista é a mesma coisa? Na cabeça da comunidade islâmica, a resposta é SIM. A ordem de retirada dos sudaneses do sul é sinônimo absoluto de perseguição religiosa. De acordo com Elizabeth Kendal, no RELIGIOUS LIBERTY PRAYER BULLETIN, referindo-se ao dia 8/4 como sendo o prazo para a retirada dos cristãos, “a mensagem que querem passar é esta: se submetam à sharia ou deixem o país”. Em outro artigo, expliquei por que a migração para o sul não é tão fácil. É um processo delicado, que não poderia ser feito sob ameaça ou truculência. No cotidiano, porém, a pressão existe.

No último domingo, 8/4, o suposto “dia do não fiquem”, os jornais sudaneses já mostravam um discurso mais ameno da parte do presidente sudanês. A transição seria supostamente tranquila. De fato, temos estado em contato com os pastores sudaneses desde então, e até agora não há surpresas. A vida segue normalmente, e eles não têm sido incomodados.

Honestamente, eu creio no poder de Deus e na presença de sua igreja. Creio que a pressão internacional teve seu papel no que tange a essa alteração de postura. Mas o histórico do país, e mesmo a pressão emocional ainda latente sobre os cristãos, me levam a não crer que o problema está sequer perto de ser solucionado. O lugar desses irmãos é no norte. Seja essa a bandeira da igreja protestante: protestemos pela justiça.

Fonte: Pastor Mário Freitas e Blog Mais no mundo

Published in: on abril 11, 2012 at 18:51  Deixe um comentário  

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