Quem matou Deus?

Quase todos já ouviram alguma vez falar sobre a polêmica frase de Friedrich Nietzsche: “Deus está morto”! (Assinado: Nietzsche).

Algum religioso revoltado, em tom de gracejo escreveu após a morte de Nietzsche: “Nietzsche está morto” (Assinado: Deus).

Conhecendo mais profundamente o tempo, circunstâncias e fatores que moldaram o quadro no qual a frase foi citada, pode-se compreender que – ao invés de levar religiosos à revolta – deveria nos conduzir sim, à penitencia, por “matar Deus” na prática, seja vivencial ou culturalmente.

Afinal, nem Darwin nem Nietzsche mataram Deus.

Harvey Cox, ao analisar os fenômenos religiosos – com formação teológica por excelência – concluiu em frase lapidar: “As igrejas se transformaram no túmulo de Deus”!

Isso aconteceu por meio de um processo longo, e a vinda de Jesus, o Filho de Deus culminando com seu assassinato pela instrumentalidade dos teólogos, intérpretes da lei, povo religioso e líderes judaicos, demonstrou de forma iniludível, que a religião queria “Deus ao seu serviço”, e os sacerdotes não abririam mão do controle sobre a divindade, e não o oposto como era de se imaginar.

Talvez as constantes ameaças de terrores e castigos para com aqueles que ousassem aproximar-se da “árvore da ciência do bem e do mal”, fosse – não o medo de Deus – mas das classes que se diziam autorizadas por “Ele” para supostamente gerenciar seus negócios na terra! Eles não queriam compartilhar “a chave da ciência”.

Não precisamos ter formação teológica ou filosófica – só um pouco de bom senso – para perceber que muitas exigências em todos os sistemas religiosos, são impostas pelos homens que os elaboram e não por Deus, e que a forma como as pessoas são levadas a dedicar-se à salvação futura, e colocar suas expectativas no além, é grosseira manipulação e desejo de que o povo não seja esclarecido e “interfira nos esquemas humanos aqui da terra”.

O próprio Jesus contou a parábola de lavradores maus (líderes religiosos) que se apoderaram das terras de certo homem (Deus), e espancavam e matavam a todos os seus enviados (profetas que os advertiam). Ao final, o dono da terra (Deus), imaginou que enviando seu próprio filho (Jesus), seria respeitado e acatado (pelos lavradores maus) e o que aconteceu? A parábola diz que eles pensaram de modo bem diferente:- “este é o herdeiro! Matemo-lo e a herança virá a ser nossa”! (Lucas capítulo 20 versos 9-14).

Foi assim, e continua sendo cada dia mais, que os religiosos passaram a tratar a religião como um grande negócio, igrejas empresas, e pessoas espécies de mercadorias. A moeda subjetiva é a fé (ou crença, já que não possuem um saber justificado) e o objetivo final é – voltando a Cox – “a sedução do espírito”, isto é, capturar as expectativas, sonhos e esperanças das pessoas e de forma astuta transformar tudo num esquema de dependência do sistema e do sacerdote que o controla, utilizando divindades, modelos e ritos como instrumentos para mantê-las em submissão.

Jesus “bateu de frente” com todo esse esquema em seus dias, e foi morto pelos religiosos.

E o momento fatal que determinou a ruptura, a impossibilidade de se alinharem à mentalidade que o jovem Galileu pregava, foi quando Ele entrou no Templo e “mexeu com o comércio”!

Ele cometeu o erro de falar de um “Reino” onde as hierarquias eram invertidas, não havia “chefões”, os maiorais deveriam servir e não buscar ser servidos, onde a prática do bem era a evidência divina e não as teorias complicadas dos religiosos, algo que ocorria no coração sem ritos, sem intermediários humanos, onde fórmulas “quase mágicas” eram abolidas e uma relação simples entre a alma e Deus era estabelecida mediante a fé pura e singela.

A questão não gravitava em torno de uma nova fé – já havia milhares – mas em uma nova prática de vida vivida em solidariedade.

Aliás, Ele ousou, contar a parábola do samaritano, “onde um sacerdote e levita falharam” (vilões) e o herói era a própria figura de um anti-religioso tradicional dos judeus: um samaritano!

Os sacerdotes desejavam continuar seu negócio, usando de forma conveniente e astuta o nome de Deus, mas que Ele ficasse bem longe deles: determinariam os critérios, estabeleceriam valores, criariam regras e regras se apresentariam como representantes divinos e as orientações deles deveriam ser seguidas.
Não é sem motivo que as religiões gostam tanto de relíquias, símbolos, fetiches, amuletos aos quais conferem valor mágico e representações: o que elas não desejam é a realidade!

É a “coroa de Cristo, a capa de Cristo, o sangue de Cristo”, etc.

Aceitam até a idéia de “espírito de Cristo”, mas jamais a realidade dele, porque a realidade dele implica em encarnação e presença – e isso é contrário a tudo que almejam – por isso a encarnação do Verbo foi rejeitada!

Jesus insurgiu-se contra toda essa “falsificação sacerdotal e religiosa” de Deus, da fé, do reino e dos conteúdos dele.

Ele tinha de morrer!

Diz a Escritura que quando Ele morreu, “o véu do santuário rasgou-se de alto a baixo”: deveria ser visto como o fim de toda aquela estrutura de dominação da consciência humana pelos “fabricantes de religião”.

Mas evidentemente, eles foram lá e logo “o véu já estava costurado novamente”, e eles podiam continuar a ditar para os que passivamente se submetem a toda estrutura de dominação, a suposta “vontade divina”.

E essa vontade divina incluía que os homens tinham de sentir-se miseráveis, detestáveis, insuficientes, inadequados, maus e condenados: ou seja, eles iam continuar a necessitar da presença dos líderes religiosos parasitas para se aproximarem de Deus, e para dizer a eles tudo que precisavam fazer. E por ai vai…

Devo continuar? (já não bastam os púlpitos perdidos e os e-mails desaforados que tenho recebido?)

Fonte: Darckson Lira.

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Published in: on fevereiro 4, 2012 at 10:31  Deixe um comentário  

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