O ateu, Deus e o câncer

No mundo digital, tudo muda de endereço em velocidade elevada. O Diário do Centro do Mundo não é exceção. A partir da semana que vem, o DCM pode ser acessado em nova casa. Os móveis serão outros, mas a missão é a mesma: compartilhar com você, a partir de Londres, o que de mais instingante acontece no mundo — idéias, pessoas que estão construindo ao mesmo tempo a história e o futuro.

Hitchens pré-pesadelo. Foto: Divulgação

Christopher Hitchens, 61 anos, colunista da Vanity Fair, é um dos maiores polemistas do jornalismo contemporâneo.  O título de um de seus livros conta tudo: “God is not great”. Hitchens nasceu na Inglaterra, estudou em Oxford, foi de esquerda, mudou para os Estados Unidos e lá se tornou um dos semideuses do mundo literário e cultural americano.

Para meu gosto, é excessivamente conservador, mas é impossível negar seu talento.

Um de seus alvos é a religião. Hitchens, ateu, acha que a religião faz mais mal que bem para a humanidade. Uma frase clássica de um personagem Dostoievski — “se Deus não existe, tudo é permitido” — é usada por ele em sua argumentação. A frase, segundo Hitchens, é insultuosa para todos nós. Não dependemos da existência de Deus para saber que não devemos matar, roubar, estuprar.

Hitchens, com sua pregação antideus, atraiu o ódio de muitos religiosos. Mas agora há grupos organizados rezando por ele. Não para que ele mude e acredite em Deus, mas para que sare. Há poucos dias, num artigo na revista Vanity Fair, ele anunciou que está com câncer na garganta. Pouca gente com seu tipo de câncer sobrevive para contar a história. Lembro de George Harrison: todo seu dinheiro não comprou a saúde quando o cigarro lhe provocou um câncer na garganta. (Quando penso em George, morto aos 58 anos, me ocorre Epicuro com sua sabedoria irrefutável: nada é tão importante para a felicidade como a boa saúde. O bilionário sem saúde é um miserável.)

Dramas como o de Hitchens sempre mostram a fragilidade de tudo. Hitchens tinha acabado de lançar, com uma repercussão extraordinária, um livro de memórias. Vivias dias de glória. Estava dando entrevistas para todo mundo e recebendo informações de vendas incríveis quando desabou sem conseguir respirar e mergulhou num pesadelo que, provavelmente, só terminará com sua morte.  Desfrutar a vida como se cada dia fosse o último pode soar como clichê, mas é uma das melhores coisas que alguém pode fazer, e é uma pena que a gente só pense nisso quando aparecem casos como o de Hitchens.

Por que eu? Esta é uma pergunta clássica em situações extremas. Hitchens, com sua inteligência e agudeza, reformulou-a. “Por que não eu?” Sêneca, o grande filósofo romano, escreveu que nada que aconteça a alguém não pode acontecer a nós mesmos. Preparemo-nos, portanto, para tudo. E no entanto ficamos perplexos quando alguma coisa ruim irrompe em nossa vida.

Hitchens, numa entrevista à CNN em que sua viçosa cabeleira sexagenária estava substituída por tufos trazidos pela quimioterapia, não parecia desesperado, o que depõe em favor de seu caráter. Disse que abençoa os que rezam por ele, mas sem acreditar em “encantamento”. Ele próprio, coerentemente com suas convicções, não reza. (No pé deste artigo, está um vídeo, com legenda em inglês, em que Hitchens expõem suas idéias primorosamente.)

Há dez anos recebi uma notícia parecida com a que foi dada a Hitchens. Um tumor no rim esquerdo. Tive uma cólica no rim, fui ao Einstein, fiz exames na madrugada e dormi no ambulatório sob o impacto de sedativos fortíssimos. Estava meio sonado pela manhã quando ouvi uma enfermeira comentar com outra: “É aquele ali que está com câncer no rim?” Dei uma olhada para ver se havia mais algum paciente no ambulatório. Não havia.

Dias depois, estava na sala de cirurgia.

Saí dela sem um rim. Podia, sim, acontecer comigo. Desde então, me preocupei em levar uma vida mais saudável do que a que tinha como típico jornalista. Me interessei também por coisas que desprezava em minha ignorância, como meditação e ioga. Incluí em linhas leituras gente que ajuda a viver melhor com suas palavras, como Sêneca, Marco Aurélio e Montaigne. Com eles é mais simples construir “musculatura interior”.

Se recorri a Deus no desespero? Não. Simplesmente não acredito. Mas não acho que ninguém deva brigar por isso. A pessoa que mais admirei e amei em minha vida acreditava: meu pai.  Minha maior ambição, pós-vida, é virar pó, e nunca mais ter que enfrentar as dores deste vale de lágrimas. Reencarnar em meio a outras pessoas que não as que fazem parte de minha vida seria um pesadelo inominável para mim. Não quero outro pai, não quero outra mãe, não quero outros irmãos, não quero outros filhos, não quero outros amigos.

Não quero sequer outros inimigos.

Gosto da atitude de Hitchens. Ele fez a pergunta a exata para enfrentar, da melhor maneira possível, os tempos difíceis que tem pela frente: por que não eu?

Assista ao vídeo:

Fonte: Época

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Published in: on agosto 7, 2010 at 13:10  Deixe um comentário  

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