Para Dostoiévski não há vida humana sem relação com Deus

Para Vadim Nikitin, traduzir o escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) mexe com o russo que ele poderia ter sido e não foi. “Vim de Moscou para São Paulo aos 4 anos, e acho que nunca acabei de chegar. De modo que o exercício da tradução, nesse caso, é uma permanente travessia, que tem a ver de perto com o tempo ilimitado de trabalho. A tradução de “Duas Narrativas Fantásticas” foi um salto mortal na minha vida”, disse.

Nikitin, que também é ator e diretor teatral, considera Dostoiévski um maldito e não um clássico, por conta da dificuldade em transpor o autor para outras linguagens, sobretudo a do cinema, “que em geral é careta, além de ser temerosa demais. Tudo o que Dostoiévski jamais seria. Ele não é um clássico e sim um maldito.”

A Livraria da Folha consultou Nikitin, os tradutores Klara Gourianova e Nivaldo dos Santos, e o colunista da Folha e especialista em Dostoiévski, Luiz Felipe Pondé, sobre a importância das obras do autor, inseridas na literatura russa.

Nikitin falou sobre sua experiência em transpor “O Idiota” para o palco, a tradução de “Duas Narrativas Fantásticas” e de cerca de 30 fragmentos escritos de Dostoiévski, o fato de não se considerar um tradutor profissional, dentre outros temas.

A russa Gourianova, que traduziu “Humilhados e Ofendidos” e “A Aldeia de Stepântchikov e Seus Habitantes”, de Dostoiévski, examinou as diferenças entre as literaturas clássica e contemporânea russas, separadas por períodos históricos conturbados.

O professor e tradutor brasileiro Nivaldo dos Santos ressaltou que as características da língua russa e do estilo de cada autor têm de ser preservadas. “Às vezes, a saída que encontro para evitar uma desfiguração da obra é causar uma certa ruptura na nossa própria língua”, explicou o tradutor de “Noites Brancas”.

Já o colunista da Folha e autor de “Crítica e Profecia: a Filosofia da Religião em Dostoiévski”, Luiz Felipe Pondé, afirmou que as traduções via francês fazem de Dostoiévski, um Marcel Proust (1871-1922). “Sua escrita era mais direta, simples, quase folhetinesca, fácil de ler”, esclareceu. Pondé, autor de “Crítica e Profecia: Filosofia da Religião em Dostoiévski”, publicado pela editora 34, descreveu também como Deus está presente nas obras do escritor russo. “Trata-se de um ‘Deus infeliz’.”

Leia abaixo as íntegras das entrevistas.

Livraria da Folha: Além de “Duas Narrativas Fantásticas”, você traduziu outra obra de Dostoiévski para o português?

Vadim Nikitin: Para uma editora, não. Mas, traduzi cerca de 20 ou 30 fragmentos de várias obras de Dostoiévski por conta de um projeto teatral meu chamado “Subterrâneo ou 2497 Rublos & Meio”. Trata-se de uma bricolagem de trechos dostoievskianos adaptados ao palco, cujo eixo é a narrativa “O Senhor Prokhartchin”, brilhantemente traduzida para o português por Boris Schnaiderman. É a tese de livre-docência de Boris. O projeto do espetáculo foi apresentado em 2005 no Instituto Cultural Capobianco, que fica no centro de São Paulo, a título de ensaio aberto ou obra em progresso. Digo isso tudo, porque pretendo ser tradutor não só de papel para papel, mas também de papel para palco. A meu ver, portanto, um ator, um refletor de luz ou um figurino são tão importantes quanto um dicionário.

Livraria da Folha: As duas histórias de “Duas Narrativas Fantásticas” são compostas por uma introspecção marcante. O professor e tradutor Boris Schnaiderman apontou essa característica também no protagonista de “Memórias do Subsolo”. Há outro personagem de Dostoiévski que conserva essa característica?

Nikitin: O jovem Georg Lukács (1885-1971), de “A Teoria do Romance”, fala (acerca do narrador moderno) de uma solidão que “não é simplesmente a embriaguez da alma aprisionada pelo destino e convertida em canto, mas também o tormento da criatura condenada ao isolamento e que anseia pela comunidade”. Eu colocaria a coisa nestes termos: a “introspecção” de tantas personagens dostoievskianas – inclusive a de Raskólnikov, o protagonista de “Crime e Castigo”, é “a ação de olhar para dentro” num desesperado anseio de comunidade. A literatura mundial apaixonou-se por esse gesto trágico dos russos, que o húngaro Lukács descreveu tão bem. A meu ver, o exemplo maior dessa paixão são os narradores de Graciliano Ramos (1892-1953), cuja obra é a mais perfeita tradução de Dostoiévski em língua portuguesa.

Livraria da Folha: Neste ano, você ajudou a Cibele Forjaz a adaptar “O Idiota”, de Dostoiévski, para o teatro, em parceria com Aury Porto e Luah Guimarãez. Qual foi a maior dificuldade enfrentada para transpor a obra para o palco?

Nikitin: Trabalhamos febrilmente o texto, decupando-o, reinterpretando-o e descobrindo na aparente confusão do romance um labirinto simbólico muito bem construído. Cibele chegou depois e pôde plantar a sua encenação numa terra profundamente fecundada por uma espécie de trabalho de tradução da letra para o corpo. A dramaturgia estava a meu encargo, mas tive de abandoná-la no meio do caminho por graves problemas pessoais. Apesar disso, quase tudo do que Aury, Luah e eu pensamos e criamos está ali, no espetáculo. Olhando pelo prisma teatral, quem de fato traduziu “O Idiota” para a cena foram (além dos atores, é claro) a direção de arte de Laura Vinci, os figurinos de Joana Porto e a produção de Marlene Salgado. A música do maestro, Otávio Ortega, que assina a trilha sonora, foi seminal.

Livraria da Folha: Você também é ator e diretor teatral. Qual a diferença entre traduzir um texto em prosa e uma peça de teatro diretamente do russo?

Nikitin: Gosto mesmo é de fazer dramaturgia, ou seja, traduzir uma obra, teatral ou literária, para as minhas próprias palavras, que brotam por sua vez da ação do ator e da máquina orgânica do palco. É essa, para mim, a tradução essencial, a palavra transformada em corpo, memória, saudade, ofensa, ação contracenando com o mundo. Embora não deixe de ser uma delícia fechar um parágrafo em prosa de [Anton] Tchekov (1860-1904), por exemplo, sem atores atrapalhando a paisagem. Não me considero um tradutor profissional, que pode avaliar as agruras de uma ou outra tradução. Quando me entrego a um texto e tento trazê-lo para o português, é sempre uma questão de vida ou morte. Cada palavra, cada expressão, cada vírgula – com o perdão da hipérbole – são náufragos a serem resgatados em mar aberto. No entanto, posso dizer que as traduções do russo são sempre mais espinhudas para mim, porque mexem com o russo que eu poderia ter sido e que não fui. Vim de Moscou para São Paulo aos 4 anos, e acho que nunca acabei de chegar. De modo que o exercício da tradução, nesse caso, é uma permanente travessia, que tem a ver de perto com o tempo ilimitado de trabalho. A tradução de “Duas Narrativas Fantásticas” foi um salto mortal na minha vida.

Livraria da Folha: Como você traduz obras direto do russo para o português sem ferir a característica da língua materna do escritor?

Kinitin: Traduzir é ferir. Ser tradutor é saber que a ferida é doce, é saber lamber a ferida. As traduções indiretas, como as russas recendendo a perfume francês, pecam justamente por quererem dar a impressão de que não houve parto, não houve dor, não houve um voo transatlântico entre as almas das palavras. É claro que é melhor “ir à fonte”, o grande conselho que se dá tanto a tradutores quanto a pesquisadores. Mas, no caso de uma língua e de uma cultura, arrogar-se ao grau de “tradutor fiel” é tão ridículo quanto tentar manter a castidade em pleno gozo de um “ménage à trois”. Na minha próxima tradução, seja ela de que língua for, quero assinar assim: “Traição: Vadim Nikitin”.

Livraria da Folha: Como conseguiu transpor a liberdade estilística utilizada por Dostoiévski para o português?

Klara Gourianova: Simplesmente mantendo o estilo livre, é a primeira obrigação de todo tradutor.

Livraria da Folha: Quantas obras traduziu diretamente do russo, além de “Humilhados e Ofendidos” e “A Aldeia de Stepântchikov e Seus Habitantes”, de Dostoiévski?

Gourianova: Umas 25. Só traduzo diretamente do russo, que é minha língua materna.

Livraria da Folha: De quais autores?

Gourianova: [Aleksandr Sierguéievitch] Púchkin (1799-1837), [Liev] Tolstói (1828-1910), [Anton] Tchekov (1860-1904), [Nikolai] Gógol (1809-1852), [Máximo] Gorki (1868-1936), [Ivan] Turguêniev (1818- 1883), M. Aguêiev, e outros que não estão no domínio público, mas traduzo para mim, porque gosto.

Livraria da Folha: Enfrenta dificuldades em traduzir alguns termos russos para o português? Recorre a dicionários ou outros tipos de consulta?

Gourianova: Não me lembro de ter tido dificuldades desse tipo na tradução das obras de Dostoiévski, e quando tinha em outras traduções, procurava um equivalente, em último caso dava uma nota. Não vou dizer que traduzir é fácil, ao contrário, sempre surgem dificuldades, e é claro que recorro a dicionários e todo tipo de consultas que achar necessário.

Livraria da Folha: Qual a principal característica da literatura russa clássica e da contemporânea?

Gourianova: A clássica é mais universal em todos os sentidos, já a contemporânea, principalmente do período soviético, é mais voltada para a vida e os problemas do país que três vezes mudou bruscamente de regime, sofreu duas revoluções e duas guerras – uma civil e outra contra os alemães, ambas sangrentas, o terror stalinista, os campos de concentração… Falo da literatura, não do “realismo socialista” que não considero como tal. Além disso, as novas ondas e tendências que ocorreram na literatura, nas artes e na música no mundo inteiro, não deixaram de atingir a literatura russa contemporânea.

Livraria da Folha: “Noites Brancas” é a obra de Dostoiévski que mais se aproxima do romantismo. Durante a tradução, quais características denunciaram traços da escola romântica no texto do autor?

Nivaldo dos Santos: O subjetivismo presente na novela (o mundo interior do narrador ocupa quase todo o espaço na narrativa), a fuga da realidade (o narrador vive num mundo de sonhos) e a idealização da personagem feminina Nástienka pelo narrador. Acho interessante destacar também a paisagem, o fato de que a história se desenrola durante quatro noites (o noturno é uma característica do romantismo), mas essas noites são brancas. São noites sem escuridão, mas que não possuem exatamente a clareza do dia. Até mesmo as noites são irreais no mundo desse narrador.

Livraria da Folha: Certas obras de Dostoiévski chegaram ao português por meio do francês e foram alvo de críticas por conta disso. Como você traduz obras direto do russo para o português sem ferir a característica da língua materna do escritor?

Santos: Penso que o tradutor não deve ter medo da obra, mas precisa respeitá-la. As características da língua e, talvez mais ainda, o estilo de cada autor, têm de ser preservadas. Às vezes, a saída que encontro para evitar uma desfiguração da obra é causar uma certa ruptura na nossa própria língua.

Livraria da Folha: Qual tradução foi a mais complicada de ser realizada e por que?

Santos: Acho que foi “Tarás Bulba”, de [Nikolai] Gógol (1809-1852). Este autor utiliza muitos termos e expressões típicas do interior da Ucrânia. Para se ter uma ideia, as edições de “Tarás Bulba” em russo costumam ter um apêndice com o significado desses termos, que são desconhecidos para muitos russos.

Livraria da Folha: Como é seu ritmo de trabalho durante uma tradução? Dedica quantas horas por dia?

Santos: Isso depende de alguns fatores. Além de traduzir, eu também leciono na Unicamp, então tenho de conciliar essas duas atividades. Em média, dedico três ou quatro horas ao trabalho de tradução. É interessante que isso serve também para relaxar nas horas em que não estou envolvido em atividades docentes.

Livraria da Folha: Cite sua obra favorita de Dostoiévski e qual autor da literatura russa mais aprecia.

Santos: De Dostoiévski, “Os Irmãos Karamázov”. Gosto de diversos autores russos, como Gógol, [Leonid] Andreiév (1871-1919), [Mikhail] Bulgákov (1891-1940), mas o meu preferido é Isaac Babel (1894-1940).

Livraria da Folha: Como se dá o processo mimético entre Dostoiévski e Deus, quando o autor faz com que seus personagens suicidas provem o que é estar no lugar da autoridade divina?

Luiz Felipe Pondé: Para Dostoiévski, o que se dá entre o homem e Deus é a possibilidade de uma metanoia, ou seja, “contaminação” do homem por Deus, por sua presença, afastando-o da tristeza da vida sem Deus – isso é teologia ortodoxa. O suicida é alguém que, por negar a vida, se acha o máximo e afirma sua liberdade criando o nada (a morte) no seio da sua vida, por isso ele se faz Deus de modo negativo (mal). Ao invés de Deus, que cria o ser, ele o nega, criando a morte. Trata-se de um Deus “infeliz”.

Livraria da Folha: Certa vez, você comentou em uma entrevista sobre a opressão racionalista de Dostoiévski em relação a Deus. Quais dos seus personagens vivem sob ela e como?

Pondé: O maior racionalista é Ivan Karamázov (“Os Irmãos Karamázov”). O racionalismo para Dostoiévski não justifica a vida e a prova disso é que quando se quer justificar a vida e o mundo pela razão, cai-se em depressão (suicídio). Ou você quer se matar ou você quer matar a vida enquanto história, matando o pai, como Ivan (parricida teórico que leva o irmão a matar o pai). O racionalismo é o projeto ocidental de querer afirmar o homem como causa sui (em latim, causa de si mesmo). O homem ou é filho de Deus ou do nada. O nada nos habita e esse é o grande mal que a modernidade quer negar com seus recursos racionalistas que acabam sendo apenas de autoajuda.

Livraria da Folha: Dostoiévski conseguiu criar um universo paralelo sem as interferências de Deus no destino do ser humano?

Pondé: Deus não interfere opressivamente na vida humana nem para a teologia russa nem para Dostoiévski. Para Dostoiévski não há vida humana sem relação com Deus, porque o homem é um animal da transcendência – ou transcende pra Deus ou pro nada. A culpa é o centro da vida moral, ao contrário da conversa blablabla de hoje de que não se deve ter culpa, de quem não sente culpa é um monstro.

Livraria da Folha: Qual a principal característica da literatura russa clássica e da contemporânea?

Pondé: Profundidade psicológica, amplitude sociopolítica e aguda visão das mazelas modernas que, muitas vezes, os ocidentais não veem porque estão implicados dogmaticamente com o projeto racionalista moderno.

Livraria da Folha: Cite sua obra favorita de Dostoiévski e qual autor da literatura russa mais aprecia.

Pondé: “O Idiota”, de Dostoiévski. Fora ele, aprecio muito Liev Tolstói (1828-1910) e Anton Tchekov (1860-1904).

Fonte: Folha.com

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Published in: on agosto 2, 2010 at 13:35  Deixe um comentário  

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