Jesus não é jogada de marketing

A revista Época publicou reportagem que compara os escritos dos quatro evangelhos a uma estratégia de marketing. Em outras palavras, questiona se os evangelhos eram apenas uma propaganda para conquistar públicos diferentes.

A reportagem traz a entrevista com L. Michael White, diretor do Instituto de Estudos sobre as Origens do Cristianismo da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. White publicou o livro Scripting Jesus (na tradução livre, Roteirizando Jesus) onde afirma que, na falta de fatos, as várias versões de vida de Jesus foram escritas para conquistar plateias distintas, numa verdadeira jogada de marketing.

Noêmia Paim, pastora e professora de Panorama Bíblico, comentou a polêmica entrevista, abordando o assunto à luz da História e da Teologia.

Versão de White: Fatos da vida de Jesus narrados nos Evangelhos serviram para fundamentar a “agenda teológica” de seus autores. “Os evangelistas sentiam-se compelidos a preencher os vazios da narrativa oral com fatos adequados aos seus objetivos”.

Pergunta: A senhora acredita que Mateus, Lucas, Marcos e João tenham sido obrigados e escrever os evangelhos apenas para preencher lacunas históricas e atingir objetivos específicos? Onde fica a inspiração divina na redação da Bíblia?

Pra. Noêmia: Os evangelhos não foram escritos para preencher lacunas, mas possivelmente foram escritos para comunidades diferentes. Por esta razão, os evangelistas, de modo geral, apresentaram suas narrativas realçando mais um ponto ou outro. Mateus, por exemplo, escreve para a comunidade judaica da região na qual vivia (Palestina ou Síria), mas isso não significa que os escritos tenham sido dirigidos exclusivamente a esses fiéis.

Como ele conhece sua comunidade, ao relatar os ais contra os escribas e os fariseus, por exemplo, ele diz: “Ai de voz, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!” (Mateus 23:27).  Fazia sentido essa abordagem para pessoas para as quais as leis contra as impurezas eram muito importantes, no caso, os líderes religiosos judaicos.

Já no relato de Lucas, presumivelmente dirigido a uma comunidade gentílica, não há espaço para discussão pertinente a categorias religiosas nem a leis cerimoniais, e ele assim resume a perícope: “Ai de vós que sois como as sepulturas invisíveis, sobre as quais os homens passam sem o saber!” (Lucas 11:44).

No caso do evangelho de João, nem ao menos existe certeza quanto aos seus destinatários. É o que defendem Carson, Moo e Morris  e outros autores de igual renome. Esse evangelho tem caráter mais universal, trata muito mais de contrastes: céu e terra, de cima e de baixo, luz e trevas, vida e morte. No caso, o Sr. L. Michael White está isolado quando tenta construir razões mercadológicas para as diferenças nos relatos evangélicos. Seria mais fácil questionar as aparentes contradições entre um evangelho e outro que tentar descobrir uma estratégia de marketing para “vender” a imagem de Jesus. O autor parece desconhecer a cultura judaica que, em todos os tempos, conseguiu preservar suas tradições mesmo quando desterrados. Eles, fechados como eram para assuntos religiosos, naturalmente perceberiam muito rápido qualquer tipo de engodo que tentasse “empurrar” um Jesus diferente para cada comunidade. Não é possível, também, desconsiderar que eles tinham vários parentes em comum, com laços de amizade, laços esses que os mantiveram um povo mesmo morando em países distantes.

Ademais, as diferenças citadas não chegam a interfererir no conteúdo, de vez que se trata de detalhes que interessam mais aos exegetas, mas que não trazem prejuízo à mensagem central de cada evangelho, quer quanto aos fatos narrados, quer quanto ao corpo doutrinário. Para ser marketing, não poderiam os escritos ter nenhum compromisso com as promessas do Antigo Testamento e deveriam apresentar um Jesus completamente divorciado daquele conhecido de tantas testemunhas que O acompanharam pela Galiléia e Judéia, o que não ocorreu. Pelo contrário, os evangelhos já faziam parte do cotidiano dos que presenciaram os acontecimentos, e alguns tiveram a oportunidade de registrá-los.

Quanto à universalidade dos quatro evangelhos, já não se discute o fato de que os relatos bíblicos podem ter pertencido num primeiro momento apenas à comunidade de origem, e que não dá para ser precisado por quanto tempo. Esta universalidade só foi confirmada oficialmente após a compilação dos textos que compuseram o cânon bíblico do Novo Testamento, em 397 d.C., no Concílio de Cartago, muito distante, portanto, dos destinatários primitivos.

Entretanto, até essa afirmativa deve ser feita com a cautela temporal, pois temos relato bíblico que reforça a tese do compartilhamento dos textos pelas comunidades, um pelo menos, citado nominalmente pelo apóstolo Paulo em Colossenses 4.16:  “E, uma vez lida esta epístola perante vós, providenciai por que seja também lida na igreja dos laodicenses; e a dos de Laodicéia, lede-a igualmente perante vós.”

Vale ressaltar que, admitir a distância física e temporal entre os textos bíblicos e seus primeiros destinatários não significa, de forma alguma, brandir a tese escoltada pelo autor, segundo o qual os autores bíblicos “fantasiaram” alguns relatos que se encaixasse no gosto do seu público. Isso é perder de vista toda a historicidade dos textos canônicos, e demonstra não haver compromisso do escritor com o tempo das narrativas, pois não é possível fazer afirmativas precisas acerca de escritos e culturas tão distanciados dos nossos, como ele faz com arrogância, a não ser pela fé e pela orientação do Espírito Santo. O senhor White parece olhar para a época dos fatos bíblicos com os mesmos óculos culturais que utilizamos ao estudar o fenômeno gospel ou o neopentecostalismo, esses do nosso século, o que transgride toda norma hermenêutica.

Versão de White: O texto de Lucas foi escrito para evangelizar povos greco-romanos. Os de Marcos e Mateus, para os judeus. E o de João era destinado aos que faziam a transição de uma seita judaica para uma religião independente – o cristianismo, que em muitos aspectos se opunha ao judaísmo. A necessidade de cativar cada público teria sido responsável por moldar o conteúdo dos Evangelhos. Portanto, os Evangelhos não teriam o caráter universal que se atribui a eles.

Pergunta: A Bíblia foi escrita para cativar públicos específicos, tendo Jesus como um produto mercadológico?

Pra. Noêmia: Primeiramente, não se há de falar em cristianismo propriamente dito antes do início do II século da era cristã. O movimento foi visto como uma seita judaica durante várias décadas. O que temos é a comunidade primitiva, ou, a igreja primitiva, apesar de em Antioquia terem sido chamados de cristãos, nos tempos dos apóstolos (Atos 11:26).

Para fazer tal afirmação, é necessário desconhecer a cultura judaica e o nível de informação  que sempre existiu entre os judeus. A Didaquê, por exemplo, é um escrito atribuído aos apóstolos e estimado pelos estudiosos em, no mínimo, entre os anos 60 e 70 d.C ou, no máximo, por volta dos anos 145-150 d.C , e versa sobre a doutrina e os deveres dos convertidos. É um escrito apócrifo, não reconhecida pelos segmentos protestante e evangélico. Se for levado em conta que o evangelho mais antigo, o de Marcos, teria sido escrito por volta de 40 d.C. e o evangelho de João, escrito em aproximadamente 90 d. C., e considerando a Didaquê como o um dos textos mais utilizados entre a comunidade primitiva, como atesta Eusébio de Cesaréia , erudito cristão que nasceu cerca de 260 d.C., não há porque questionar a universalidade dos evangelhos, quando não é questionada a universalidade da Didaquê, escrita em data posterior aos quatro evangelhos, e que não tem recebido críticas quanto ao seu caráter universal nem pesa sobre ela a pecha de que tenha sido um escrito “encomendado”. Por que, então, os evangelhos?

Deve ser lembrado, uma vez mais, que o povo judeu ainda tinha hábitos nômades, e o exercício de crer que os ensinos não eram disseminados rapidamente entre as comunidades demanda mais esforço que o de simplesmente crer que esse sempre foi um povo com forte apego às tradições orais, muito mais fiéis em sua transmissão que os povos ocidentais, e que as sutis diferenças entre os relatos dos evangelistas não produz discrepâncias doutrinárias nem apresentam um Jesus diferente em cada evangelho, como quer fazer crer o autor do livro em debate.

Ademais, como referido anteriormente, embora alguns estudiosos defendam essa ideia, as diferenças entre um e outro evangelho não apontam sistematicamente para uma mudança de plateia. Há alguns pontos, como aqueles citados acima, que parecem querer orientar uma ou outra comunidade, sem perder a essência do Jesus histórico. Esta é apenas uma entre milhares de “estudos”que buscam tão somente desacreditar a veracidade do texto bíblico, e que nada trazem de edificação.

Versão de White: Lucas, que precisava se adequar à cultura helênica – habituada a filósofos como Sócrates e Platão –, teria resolvido esse dilema tornando-se um antagonista da tradição judaica. “Seu objetivo é separar Jesus dos judeus”, afirma White. “E seu estilo literário é da mais alta qualidade, de modo que qualquer um do mundo greco-romano ficaria confortável com sua leitura.

Pergunta: O evangelho de Lucas explicita que ele precisou agradar aos romanos distanciando Jesus dos judeus?

Pra. Noêmia: Não. Isso não ocorre em nenhum momento. O que realmente acontece é que, com o advento de Cristo, inicia-se uma formação de valores morais, espirituais e sociais diferenciados do judaísmo, e os líderes da Igreja são perceptivos a essa mudança. E isso pode ser notado igualmente nos ensinos do apóstolo Paulo, que, se por um lado defende sua origem judaica, por outro incentiva os convertidos a viverem de modo diferente dos judeus. Ou seja, essa mudança de prumo se dá não apenas em relação a Lucas ou a João. Não há tentativa de afastar Jesus dos judeus, até porque todos os detalhes sobre seu nascimento, inclusive a sua origem judaica e seu hábito de ir à sinagoga (Lucas 2:41-43, 4:16-17, entre outros), costumes tipicamente judaicos, são relatados com clareza no terceiro evangelho.

Não pode ser esquecido ainda que o Concílio de Jerusalém, o primeiro a ser realizado pelo novo segmento, e o único nos tempos apostólicos, adverte aos nãos judeus a não procurarem agir como judeus. Eles estão claramente se referindo a algo novo, e não a um cisma dentro do judaísmo, como fora inicialmente interpretado pela classe sacerdotal. E por isso o ensinamento claro de uma nova doutrina, desapegada dos rituais judaicos (Atos 15:28-29; Gálatas 2:11-15). A intenção era apresentar o Jesus que veio para salvar toda a raça humana, quer fossem judeus, quer gentios.

Versão de White: Embora os quatro situem a crucificação de Cristo na Páscoa, João difere de Lucas, Marcos e Mateus no que diz respeito à Última Ceia. Para João, ela teria ocorrido antes da Páscoa, e não durante. Qual a diferença que isso traz? Segundo White, o objetivo seria confirmar entre os judeus a ideia de Jesus como o “cordeiro de Deus”, sacrificado para expiar os pecados da humanidade.

Pergunta: A cronologia desse fato é realmente diferente no evangelho de João? Por quê?

Pra. Noêmia: O texto bíblico, tanto no Antigo como no Novo Testamento não se compromete com a cronologia. Os fatos são muitas vezes relatados em total descompasso temporal, porque o seu compromisso é com a essência, e não com a forma. Veja-se, a esse título, a confusão das línguas em Babel (Gênesis 11:7) e a divisão da terra segundo as diversas línguas no capítulo anterior (Gênesis 10:25, 31). Qual antecedeu qual? Veja-se também o sermão da montanha feita no alto do monte (Mateus 5:1) e ao descer do monte, numa planura (Lucas 6:17). Isto tem algum significado especial? Não. O que realmente importa é o sermão proferido por Jesus naquele dia, a sua essência e o impacto que ele produz na vida daqueles que o ouvem. A mensagem sobre Jesus como Cordeiro de Deus está em toda a Escritura Sagrada, e essa ideia é repassada independentemente da intenção do evangelista, tanto em Isaías (53:7) como em João (1:29) ou ainda em Apocalipse (14:1). E o autor do livro em questão sabe que é consenso entre os estudiosos que o escritor do evangelho de João não é o mesmo de Apocalipse; então, nem cabe falar que o evangelista repete a ideia do Cordeiro Salvador no Apocalipse. É outro autor bíblico que está também falando sobre a figura do Cordeiro de Deus. Não está, portanto, em discussão o dia da Última Ceia, já que em todos os evangelhos Jesus é apresentado como Aquele que veio para tirar o pecado do mundo, e os sacrifícios com o derramamento de sangue do cordeiro já tem significado próprio desde Abraão (Gênesis 22:13) até Moisés (Êxodo 12:1-14), a quem Deus confiou a lei do sacrifício pascal, numa representação da morte sacrificial de Jesus (Hebreus 9:28, 10:12). Ou seja, diferentemente de White, o que vemos é o cumprimento das profecias acerca de Jesus ser o enviado de Deus para resgatar do pecado o ser humano (João 1:29).

Versão de White: Os autores dos Evangelhos, longe de ser repórteres em busca de verdades factuais, mais se aproximavam de dramaturgos. “Eles fizeram uma recriação dramática da história e analisaram os fatos sob determinado ângulo que os favorecia.”

Pergunta: Há indícios dessa atitude dos autores? A senhora concorda com essa afirmação? Por quê?

Pra. Noêmia: Não. Não há indícios dessa atitude por parte dos autores. E não, não concordo com essa informação, porque ela não resiste a uma análise científica dos livros. A crítica é totalmente subjetiva e passional, porque é impossível analisar a “intenção do autor” quando são decorridos vários séculos entre o escrito e a crítica, sabendo-se inclusive que tais escritos sofreram revisão em data muito posterior aos originais, e que as cópias manuscritas passaram por diversos procedimentos, até se tornarem quase ilegíveis. Mesmo que se considere a fidelidade dos amanuenses na transcrição dos textos sagrados, o Divino intangível sofre a interferência do humano, não propriamente quanto ao conteúdo, mas quanto ao estilo, à forma, ao significado emprestado pelas diferentes culturas que tiveram acesso aos originais, lembrando que o manuscrito original mais antigo aos quais temos acesso é o chamado Sinaiticus, datado de 350 d.C., único que contém o Novo Testamento inteiro, e que encontra-se na sala de manuscritos da Biblioteca Britânica. Fora isso, existem alguns fragmentos de livros, como o fragmento do Evangelho de João na Biblioteca da Universidade John Rylands, em Manchester, Inglaterra, datado de cerca de 125 d.C. Há também um fragmento do Evangelho de Mateus encontrado entre os manuscritos do Mar Morto, datando de antes de 68 d.C., e ainda manuscritos contendo o Evangelho de João, a Epístola aos Hebreus, e a maioria das Epístolas de Paulo, datadas de cerca de 200 d.C.

Sendo assim, quem poderia falar com seriedade sobre “intenção” dos escritores dos quatro evangelhos, e isso após passados tantos séculos? O que podemos dizer é que a inspiração divina manteve os textos como Deus permitiu que fossem mantidos, e isso é o suficiente para a nossa fé, porque, muito antes dos autores modernos, tantos outros tentaram lançar em descrédito a Palavra de Deus, como a temos, e não conseguiram. Pilhas e mais pilhas de Bíblias já foram queimadas, mas sempre sobreviveram exemplares para serem novamente reproduzidas.

Versão de White: Os historiadores são unânimes em afirmar que os quatro evangelistas bíblicos não escreveram uma só linha de punho próprio. “Não sabemos a real identidade dos autores”, diz Giovanni Bazzana, especialista em Novo Testamento pela Universidade de Harvard. Ele explica que seus nomes passaram a constar nos textos apenas a partir do século II, com o objetivo de dar credibilidade às escrituras. Sem dúvida, o texto ganhou mais força ao ser atribuído a Mateus e João (apóstolos que conviveram com Jesus) e a Marcos e Lucas, discípulos de Pedro e Paulo, respectivamente. “Esse processo de chama pseudepigrafia e era muito comum no mundo antigo”, diz o professor de Harvard.

Pergunta: Há respaldo para dizer que não se sabe ao certo a autoria dos livros? É verdade que alguém escreveu e colocou o nome deles?

Pra. Noêmia: Não existe a alegada unanimidade entre os historiadores sobre nenhum dos evangelistas ter escrito de próprio punho o evangelho que leva seu nome. A maioria dos estudiosos realmente fazem essa afirmação. Contudo, a unanimidade existe quanto à real identidade, e não autoria, dos evangelistas, porque todos concordam num ponto: os títulos como nós os temos só foram inseridos a partir do II século, mas não é correto afirmar que foi apenas para dar credibilidade aos escritos, porque contamos com a segurança da tradição oral.

Por outro lado, há uma confusão por parte do senhor White quanto aos livros canônicos, os apócrifos e  os pseudoepigráficos, de vez que os três desde sempre foram diferenciados pela Igreja e pelos Pais da Igreja. Os pseudoepigráficos sequer foram considerados na formação do cânon sagrado, ao contrário dos apócrifos. Na verdade, não se conhece nenhum Pai da igreja, cânon ou concílio que tenha declarado ser canônico um desses livros. No que concerne aos cristãos, os pseudoepigráficos têm apenas interesse histórico.

Quanto à quantidade, os pseudoepigráficos são numerosos. Segundo Geisler, por volta do século XIX, Fótio (ou Fócio) – que nasceu em cerca de 820 d.C., considerado por muitos o maior dos patriarcas de Constantinopla, havia relacionado cerca de 280 obras. As mais conhecidas são: Os EVANGELHOS: de Tomé (século I); dos ebionitas (século II); de Pedro (século II); de Nicodemos (séculos II ou V); O Proto-Evangelho de Tiago (século II); OS ATOS: de Pedro (século II); de João (século II); de Tome (?); de Paulo. EPÍSTOLAS: A Carta atribuída a nosso Senhor; A Carta perdida aos coríntios (séculos II, III); A Carta de Paulo aos laodicenses é uma falsificação baseada em Colossenses 4.16. OS APOCALIPSES: de Pedro; de Paulo; de Tomé.

Versão de White: Os Evangelhos são as principais fontes de pesquisa sobre Jesus, mas não são as únicas. Há os evangelhos apócrifos rejeitados pela igreja, que não fazem parte da Bíblia.

Pergunta: Por que os apócrifos não fazem parte da Bíblia? Quantos livros são apócrifos?

Pra. Noêmia: Para ser reconhecidos como canônicos os escritos tiveram que ser aprovados pela Igreja através de alguns critérios: 1) Apostolicidade: O documento devia ser reconhecida como de autoria de um apóstolo, ou pessoa que lhe estivesse intimamente associ¬ada, como, exemplo, os livros de Lucas – evangelho e Atos; 2) Inspiração: O documento devia possuir evidências claras de que era inspirado pelo Espírito Santo; 3) Espiritualidade: Devia revelar um caráter moral e espiritual elevados, e exaltar a pessoa e a obra de Cristo; 4)  Univer¬salidade: O documento tinha de ser aceito e usado sem reservas pela igreja cristã. A maioria dos livros do Novo Testamento foi aceita pela igreja logo de início, sem objeções. Tais livros foram chamados homologoumena, porque todos os pais da igreja se pronunciaram favoravelmente pela sua canonicidade. Já os livros apócrifos do Novo Testamento gozaram de grande estima por pelo menos um dos pais da igreja, diferentemente dos pseudepígrafos, que foram sempre rejeitados pela Igreja. Eles tiveram, quando muito, o que Alexander Souter  chamou de “canonicidade temporal e local”. Haviam sido aceitos por um número limitado de cristãos, durante um tempo limitado, mas nunca receberam um reconhecimento amplo ou permanente. O fato de esses livros possuírem mais valor do que os “pseudepígrafos” sem dúvida explica a mais elevada estima de que gozavam entre os cristãos.

Norman Geisler  fornece três razões pelas quais esses livros são importantes, e faziam parte das bibliotecas devocionais e homiléticas da igreja primitiva: Revelam os ensinos da Igreja do século II; fornecem documentação da aceitação dos 27 livros do NT; fornece informações históricas a respeito da igreja primitiva. Os apócrifos do Novo Testamento mais conhecidos são: Epístola do Pseudo-Barnabé (70-79); Epístola aos Coríntios (96); Homilia Antiga (120-140); Pastor de Hermas (70-140?); Didaquê (100-120);  Evangelho segundo os Hebreus (65-100); Epístola de Policarpo aos Filipenses (108); Apocalipse de Pedro (150); Atos de Paulo e de Tecla (170); Cartas aos laodicenses (século IV?). De qualquer forma, não foram considerados canônico. À semelhança dos pseudoepigráficos, esses livros são interessantes apenas do ponto de vista histórico. Já os ensinos que eles contêm é considerado heréticos pela igreja cristã, e deixam clara a influência dos gnósticos da época.

Versão de White: Não se sabe porque Jesus atraiu tantos seguidores. Mas os Evangelhos tiveram participação nisso porque levaram adiante a tradição de Jesus e dava força ao proselitismo cristão. Nos primeiros séculos de cristianismo, conquistaram judeus e gregos. Hoje os Evangelhos são usados por algumas igrejas evangélicas para fundamentar a teologia da prosperidade, segundo a qual os fiéis são merecedores das riquezas materiais.

Pergunta: Isso acontece hoje? Quais as conseqüências de se crer na teologia da prosperidade?

Pra. Noêmia: É interessante notar que White, em sua análise, diz: “Não se sabe porque Jesus atraiu tantos seguidores”. Nós sabemos que Jesus atraiu o mundo a Si pelo Espírito Santo que estava n’Ele, com o propósito salvador (Marcos 1:10-11). Quanto ao fenômeno da teologia da prosperidade, podemos dizer que, infelizmente, a fé salvadora contida na Bíblia e proclamada pela Igreja Cristã em suas origens perdeu muito do seu conteúdo espiritual ao longo dos séculos, e transformou-se, em muitos casos, em promessas de Paraíso na terra, situações nas quais é ensinado que aquele que crê em Jesus não terá mais dificuldades na vida, vai ter os melhores lugares nos empregos, os melhores salários, ele é sempre o chefe e não o subalterno, nunca adoece, e esquece, por outro lado, que Jesus viveu em pobreza, dependendo de auxílio financeiro (Lucas 8:3), aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu (Hebreus 5:8), e disse que as riquezas daqueles que O seguiam não estavam guardados aqui na terra, mas num lugar onde a traça não corrói nem o ladrão rouba (Mateus 6:20).

O próprio texto sagrado nos orienta sobre esses acontecimentos no meio do povo de Deus, Confira-se: “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos…” (II Timóteo 4:3).

Versão de White: White afirma, porém, que a compreensão histórica e teológica dos Evangelhos não deve levar à conclusão de que Jesus Cristo foi “inventado”. Ou que as escrituras são puramente fantasiosas. “Não estou tentando dizer que devemos jogá-las fora”, afirma o historiador. “Pelo contrário. Eu as levo muito a sério. Mas não de forma ingênua.”

Pergunta: Todos aqueles que hoje acreditam nas escrituras da forma como elas são podem ser taxados de ingênuos? Devo crer na Bíblia com ressalvas?

Pra. Noêmia: A idéia não é crer na Bíblia com ressalvas, e sim procurar entender que “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.” (Deuteronômio 29:29). Por mais que eu estude a Bíblia, mesmo estudando pontos polêmicos, a minha fé na inspiração das Escrituras Sagradas não é abalada. O Prof. André Chevitarese, referido por L. Michael White, foi meu professor na pós-graduação na UnB em 2008 (História do Cristianismo Antigo), e ele, como historiador, tem também uma visão bastante crítica da Bíblia. É possível dizer que, na ótica deles, não ficam em pé nem os relatos sobre a pessoa de João Batista. Entretanto, há mais de 2.000 (dois) mil anos esse livro está na lista dos best seller, e todos os que se levantaram contra ele já estão mortos há muito tempo e os outros seguem pelo caminho dos demais mortais. Enquanto isso, a Bíblia continua resistindo como Palavra inspirada de Deus. Conhecemos as dificuldades dos originais, e isto é útil para não nos abalarmos quanto às palavras dos sábios segundo o mundo, porque, como diz a Palavra de Deus, “Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação.” (I. Coríntios 1:21)

Fonte: IBCB / Revista Época

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Published in: on julho 19, 2010 at 13:22  Deixe um comentário  

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