MP vai investigar autor de texto homofóbico em jornal da USP

O Ministério Público informou nesta quinta-feira (29) que também vai apurar quem são os responsáveis pelo jornal “O Parasita”, que recentemente distribuiu pela internet um texto homofóbico para outros alunos da USP.

Na quarta (28), o procurador geral Fernando Grella Vieira recebeu uma representação da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo pedindo a abertura de inquérito sobre o caso e o acompanhamento dele por um promotor. De acordo com a assessoria de imprensa da Promotoria, caberá ao Centro de Apoio Cível e de Tutela Coletiva do Ministério Público distribuir o documento para todas as promotorias. Depois disso, será designado um promotor responsável nos próximos dias.

“O Parasita”, que já é investigado pela Polícia Civil, é produzido por alunos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Na sua edição virtual de março e abril deste ano, o periódico convoca os estudantes a jogar fezes em gays para ganharem, em troca, convites para a tradicional “Festa Brega” do curso. Apesar disso, nenhum responsável foi identificado ou localizado porque os editores usam pseudônimos.

Leia abaixo a íntegra do artigo polêmico publicado no “O Parasita”:

Lançe-merdas e Brega será na Faixa – Ultimamente nossa gloriosa faculdade vem sendo palco de cenas totalmente inadmissíveis. Ano passado, tivemos o famoso episódio em que 2 viadinhos trocaram beijos em uma festa no porão de med. Como se já não bastasse, um deles trajava uma camiseta da Atlética. Porra, manchar o nome de uma instituição da nossa faculdade em teritório dos medicus não pode ser tolerado. Na última festa dos bixos, os mesmos viadinhos citados acima, aprontaram uma pior ainda. Os seres se trancaram em uma cabine do banheiro, enquanto se ouviam dizeres do tipo “Aí, tira a mão daí.” Se as coisas continuarem assim, nossa faculdade vai virar uma ECA. Para retornar a ordem na nossa querida Farmácia, O Parasita lança um desafio, jogue merda em um viado, que você receberá, totalmente grátis, um convite de luxo para a Festa Brega 2010. Contamos com a colaboração de todos. Joãozinho Zé-Ruela.”

Caso de polícia

Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) instaurou inquérito na segunda (26) para apurar a suspeita de o jornal ter incitado demais alunos ao crime de injúria. “O Parasita” ainda é investigado por homofobia pela Comissão Processante Especial da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania.

A polícia ainda não tem suspeitos de terem escrito o jornal. Investigadores da Decradi foram na terça (27) à universidade e conversaram com três alunos do centro acadêmico e da atlética do curso, mas nenhum deles soube dizer quem responde pelo jornal. Quem assina o artigo homofóbico é “Joãozinho Zé Ruela”, pseudônimo do autor.

A quebra dos sigilos de e-mail e do Orkut de “O Parasita”, que serão pedidos pela polícia, poderão ajudar a desvendar o mistério. O objetivo da Decradi é identificar e localizar os responsáveis pelo periódico eletrônico. “Vamos localizar quem fez a publicação a partir da quebra do sigilo destas contas do correio eletrônico [e-mail] do jornal e da página de relacionamentos [Orkut] que ele mantém”, diz a delegada Margarette Barreto.

Os policiais também querem ouvir o depoimento dos dois alunos da faculdade que foram hostilizados pelo jornal. Os dois foram xingados por se beijarem numa festa universitária em 2009. No artigo do periódico eletrônico, os jovens são descritos como “2 viadinhos”. Os nomes deles não são citados.

“Precisamos localizar esses dois alunos que foram insultados pelo jornal por se beijarem numa festa. Ninguém pode discriminar ninguém que beija outra pessoa do mesmo sexo em local público. Isso é homofobia e foi deste modo que ‘O Parasita’ tratou esse casal homossexual”, afirma Margarette.

Aluno hostilizado

No sábado (24), a reportagem do G1 conseguiu localizar e conversar com um dos alunos citados no texto acima e que a polícia também pretende ouvir. Por telefone, o jovem, que tem mais de 20 anos e só aceitou falar com a reportagem sob a condição de anonimato, estuda farmácia e, apesar de ter sido hostilizado no jornal, afirma que vai continuar na faculdade em São Paulo.

“Quem escreveu essas coisas deve ser punido. Não gostei do que foi escrito. Eu sou revoltado com preconceito. Isso, no entanto, não vai impedir que eu continue a estudar farmácia na USP porque amo a faculdade”, diz o estudante, que beijou outro homem na Cervejada da farmácia e medicina no ano passado.

Pedido de desculpas

O jornal “O Parasita” chegou a divulgar uma nota posterior, pedindo desculpas pelo comentário contra os gays, classificando o fato como “exagero cometido na última edição”. O texto diz que o jornal é feito de humor, e pede ainda desculpas aos alunos da faculdade. A identidade dos editores do periódico ainda é desconhecida.

O assunto da discriminação feita pelo jornal também chegou à Coordenadoria do Núcleo de Combate à Discriminação, Racismo e Preconceito da Defensoria Pública, que protocolou um pedido de instauração de inquérito policial para saber quem são os responsáveis pelo jornal.

Na esfera criminal, os responsáveis pelo artigo podem ser presos por até seis meses, caso sejam considerados culpados. Na comissão, poderão ser multados. O valor mínimo é de R$ 15 mil.

A reportagem enviou dois e-mails para o correio eletrônico de “O Parasita”, mas não obteve resposta.

Outro lado

A Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP diz que uma sindicância administrativa também vai apurar os responsáveis pelo jornal “O Parasita”. De acordo com a assessoria de imprensa da instituição, a abertura da sindicância é orientada pela consultoria jurídica da USP. Além disso, a faculdade ressalta em nota que “não apoia o artigo publicado recentemente pelo jornal ‘O Parasita’ e desconhece seus autores”.

“Repudiamos o que ocorreu. Apesar de não sermos responsáveis pelo jornal, queremos discutir uma maneira de pedir desculpas aos alunos. Não vamos delegar punições aos responsáveis. Isso caberá à faculdade e à polícia”, afirma Guilherme Loverbeck, de 20 anos, segundo anista do curso de farmácia, representante da atlética.

Em nota, o centro acadêmico da faculdade informa que não apoia “atitudes homofóbicas, machistas, racistas ou que expressem qualquer outro tipo de preconceito”. O texto diz ainda que as diferenças são respeitadas, pois pensamentos distintos representam “crescimento pessoal” e “aperfeiçoamento da sociedade”.

Fonte: G1

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Published in: on abril 30, 2010 at 12:50  Deixe um comentário  

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