Julgamento de Isabella Nardoni. Resumo do quinto e último dia…

Nos bastidores do júri popular do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá a especulação deu o tom até o veredicto. Diversas teses sobre o caso foram discutidas nos corredores do fórum, nas ruas, nos táxis e até no banheiro do Fórum de Santana. A certeza para populares e até para a maioria dos repórteres responsáveis pela cobertura era uma só: eles são culpados.

O chamado telefone sem fio também marcou os trabalhos na sala de imprensa, que abrigou 70 jornalistas. Informações desencontradas fizeram até mesmo com que vários jornalistas noticiassem que os jurados choraram, o que nunca aconteceu. O empurra-empurra diário na porta do fórum e a busca da frase de efeito viraram rotina na cobertura jornalística.

Do lado de fora, os dias de julgamento foram marcados por manifestações de populares. O advogado de defesa Roberto Podval foi rotulado como vilão da tragédia. Nas entradas e saídas, foi chamado pelo povo de bandido, cão, advogado do diabo e infeliz. Quase foi agredido fisicamente, em uma tentativa de chute. Do outro lado, o promotor Francisco Cembranelli representou o mocinho. Era aplaudido mesmo sem ser visto pelo povo, que de longe identificava a Land Rover preta, com vidros escuros, na qual sempre chegava ao fórum.

O promotor foi todos os dias ao fórum acompanhado de sua mulher, a defensora pública Daniela Cembranelli. Ela tinha cadeira cativa na primeira fileira ao lado dos jurados, e acompanhou atentamente a atuação do marido no plenário. Do seu lado direito, sentou-se a escritora Ilana Casoy. Ela também tinha lugar fixo, mas na primeira cadeira da segunda fileira. Ambas usavam uma pequena caderneta preta para se comunicar. A cada indagação, a cadernetinha mudava de mão. Ilana Casoy é autora, entre outros livros sobre assassinatos famosos, de O Quinto Mandamento. Nele, ela narra o que levou Suzane von Richthofen a planejar o assassinato de seus pais. O júri do casal pode ser tema de sua próxima obra.

Daniela Cembranelli, durante a tréplica do marido no plenário em que rebatia a réplica de Podval, chegou a ficar impaciente. Tentou chamar a atenção de Cembranelli a todo custo. Pigarreou para que ele lesse depressa o que queria pedir aos jurados, antes que acabasse seu tempo de argumentação. O cronômetro zerou a tempo, e ela respirou aliviada.

Sentada atrás dos avôs maternos de Isabella, que choraram muitas vezes durante o Júri, estava outra escritora, mas de novelas. Desde a trágica morte de sua filha, Glória Perez não perde mais a oportunidade de fazer campanha para o endurecimento da Lei Penal como solução contra a criminalidade.

O ponto alto do Júri, momento mais esperado por todos, foi o depoimento de Anna Jatobá. Enquanto era interrogada pelo juiz, servidores se aglomeravam na porta de onde saem os réus para escutar. A atenção dos policias, seis no plenário e seis na plateia, além de dois coordenadores de segurança, era toda para a madrasta de Isabella. A acusada chegou a ser classificada pelo promotor como “um barril de pólvora prestes a explodir”.

Na hora do almoço do segundo dia de julgamento, os avós de Isabella tiveram de pedir aos jornalistas que os deixassem comer em paz. O pedido demorou para ser atendido, o que os obrigou a deixar o restaurante Pau Brasil, que fica ao lado do Fórum. Mesmo assim, foram seguidos por câmeras e repórteres.

A família Nardoni experimentou a mesma rotina dos demais expectadores. O pai de Anna Jatobá e alguns familiares revezavam a senha do plenário, assim como o repórter Cesar Tralli, da Rede Globo. Privilegiado pela família ou pelo advogado de defesa, ele também fazia parte deste rodízio.

Já o pai de Alexandre não revezou sua cadeira com ninguém, nem por um minuto. Durante todo o tempo se manteve atento. Chegou a ficar com os olhos marejados ao escutar Cembranelli dizer que ele sustentava o filho com tudo “do bom e do melhor”. Sua filha, Cristiane, irmã de Alexandre, chegou a ser repreendida pelo juiz ao gritar, no quarto dia de julgamento: “força, Alê!”

No fim da sexta-feira (26), último dia, a Polícia ainda teve de intervir para salvar um manifestante que, ao contrário da massa, apareceu com um cartaz a favor do casal, e que, como o advogado de defesa e os próprios acusados, quase foi linchado.

Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá foram condenados, na madrugada deste sábado (27), pelo assassinato da menina Isabella, filha de Alexandre. Os jurados entenderam que a menina foi asfixiada e jogada do prédio onde moravam. Eles responderão pelos crimes de homicídio triplamente qualificado e fraude processual. Alexandre fora condenado a 31 anos, um mês e 24 dias-multa. Já Anna, a 26 anos, oito meses e 24 dias-multa. O casal não poderá recorrer da decisão em liberdade. A sentença fora lida ao som de rojões, ouvidos ainda dentro do plenário. Podval afirmou que irá recorrer da decisão.

Na pena de Nardoni pesou o fato de ter sido cometido contra menor de 14 anos, além de ser contra descendente, no caso sua filha de cinco anos à época do crime. A pena da madrasta recebeu quase todos os agravantes que a do marido. Ela só ficou livre do agravante de descendência. O resultado foi lido à 0h40 pelo juiz Maurício Fossen, do 2º Tribunal do Júri do fórum de Santana (SP), com a presença de mais de cem pessoas na plateia. Anna chorou ao escutar o saldo de sua pena. Alexandre ficou inerte. Nessa fase final do Júri, eles já usavam algemas.

“Com efeito, as circunstâncias específicas que envolveram a prática do crime ora em exame demonstram a presença de uma frieza emocional e uma insensibilidade acentuada por parte dos réus, os quais após terem passado um dia relativamente tranqüilo ao lado da vítima, passeando com ela pela cidade e visitando parentes, teriam, ao final do dia, investido de forma covarde contra a mesma, como se não possuíssem qualquer vínculo afetivo ou emocional com ela, o que choca o sentimento e a sensibilidade do homem médio, ainda mais porque o conjunto probatório trazido aos autos deixou bem caracterizado que esse desequilíbrio emocional demonstrado pelos réus constituiu a mola propulsora para a prática do homicídio”, fundamentou Fossen.

Na coletiva de imprensa em frente ao fórum, o promotor explicou que o juiz achou coerente interromper a votação dos jurados ao chegar no quarto voto contra o casal. O objetivo é preservar os jurados. O promotor ainda voltou a reforçar que todas as provas incriminavam o casal. Por isso, não podiam ser dispensadas pelo conselho de sentença.

Réplica e tréplica

O promotor Francisco Cembranelli, em todas as fases de debate, se mostrou seguro e rebateu ponto a ponto as argumentações de Roberto Podval. O advogado garantiu que não havia provas contundentes para condenar o casal. Levantou o princípio do in dúbio pro réu, que em caso de dúvida o réu deve ser beneficiado. A defesa tentou plantar, como estratégia, a semente da dúvida nos jurados. Não conseguiu.

Na primeira fase dos debates, o advogado sustentou falhas na perícia e no inquérito criminal. Um dos pontos mais contestados pela defesa foi o fato de não terem feito exame nas unhas de Anna Jatobá, para provar se foi ela mesma a autora da esganadura de Isabella, e num fio de cabelo encontrado na rede de proteção de onde a garota foi laçada.

Para rechaçar, Cembranelli gritou em alto e bom som que a falta de exames nas unhas não era o supra-sumo de todo o caso. Para ele, se apegar a esse fato seria desrespeito com os profissionais responsáveis pela elaboração dos laudos. Quanto ao fio de cabelo, o promotor também disse que era irrelevante e que poderia ser da própria Isabella, pela cor e tamanho.

Na fase de réplica, o promotor chamou o casal de mentiroso. Ele mostrou fotos do apartamento, apontou na maquete e fez uma linha cronológica, no telão, para provar que a versão do casal não se sustenta, por haver divergência nos horários e nos fatos apresentados. Nas fotos, a cama da Isabella aparece com duas bonecas atravessadas e uma folha de papel no meio. Alexandre havia dito que a colocou a filha na cama e a cobriu antes de descer para pegar os outros dois filhos. “A dinâmica dos objetos prova que a garota não foi colocada na cama, pois a cama permanecia como foi deixada na noite anterior”, defendeu o promotor.

De acordo com Cembranelli, o advogado Podval não conseguiu descartar a asfixia em Isabella, nem o vômito encontrado na camiseta de Alexandre, assim como as marcas da rede de proteção deixadas em sua camisa. O promotor também foi questionado sobre as provas que apontavam Jatobá como responsável pela esganadura, e o promotor atribuiu ao perfil passional e violento da madrasta da Isabella. “Se os senhores os absolverem terão de acreditar na versão dos réus”, alertou o promotor.

Frases de Podval

“O senhor Promotor me intimida. Intimida pela experiência em júris, pela organização, pela forma como se dedicou ao caso. Sei que quando ofereceu a denúncia, não o fez de forma leviana, fez porque acredita no que está defendendo. Também  acho que temos que dar uma resposta à sociedade. Por isto quero agradecer à Vossa Excelência, pela competência, pela educação e atenção comigo”.

“Quero agradecer os funcionários daqui, a polícia. Agradeço também a OAB por estar aqui. Mesmo eu não sendo uma pessoa agressiva, não vamos ter problemas, e ainda porque eu era contrário a eles, da chapa contrária. Só tenho que agradecer. Agradeço aos amigos da imprensa, mas também faço uma crítica. Acho que isto não precisava ter chegado onde chegou. Acho que talvez seja um momento de reflexão”.

Na seqüência, Podval se emociona.

Frases de Cembranelli

“Não estou de olho em promoções como muitos dizem, pois já poderia estar, há tempos, na Procuradoria de Justiça. Então, abandonem esta idéia de que este promotor está em busca de aparecimento na mídia. Nunca precisei disto”.

“Não é verdade que a investigação se dirigiu apenas aos réus e não investigou outros caminhos. Investigou todas as denúncias anônimas. A investigação extraiu a hora exata: 23h36:11 pelo GPS, isto é prova cientifica. Isto é fato e fato não se discute”.

Fonte: Consultor Jurídico (com adaptações)

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Published in: on março 27, 2010 at 09:02  Deixe um comentário  

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