Claudia Leitte: “Eu estou levando as pessoas para a luz”.

A veia religiosa, as comparações a Ivete Sangalo, a briga com um jornalista na Bahia: tudo na vida de Claudia Leitte vira notícia. E, apesar de não se envolver em grandes polêmicas, a cantora sofre com os boatos a seu respeito e a quantidade de mídia negativa que cerca suas atitudes. Na entrevista abaixo Claudia fala sobre como é lidar com tanta exposição, incluindo a internet.

Você diz não seguir religião alguma, mas é bastante religiosa. Depois de ficar famosa nenhuma religião se aproximou de você pensando que você poderia divulgá-la?
Sim, com certeza.

E isso te afasta mais da ideia de uma religião organizada?
Sim, porque eu não quero levar ninguém comigo pra religião nenhuma, de jeito nenhum. Eu quero cantar e ser feliz cantando, e dividir a felicidade com as pessoas. Eu acho que Deus não impõe. A moça que trabalhava lá em casa falava pra mim, “ah, meu pastor diz que eu não posso usar brinco”. Como uma pessoa pode dizer isso? Que coisa mais ditatorial! Não pode usar brinco por quê? Deus vai olhar para o seu coração, não pro seu corpo. Deus vai estar lá se importando com as roupas que você usa? Quantas pessoas usam uma saia até o pé e são super, hiper promíscuas? Ou então um assassino, que mata uma pessoa e depois diz “oh, meu Deus, meu Senhor” e vai pra igreja orar com a Bíblia? Isso é muito louco: o brinco, a roupa, a religiosidade… Elas não definem o caráter de ninguém.

É difícil imaginar uma porta-voz melhor do que você para uma religião: jovem e casada, tem filho, é famosa, tem sucesso.
Eu quero ser é porta-voz de Deus, o que Deus fala através de mim, o tempo todo. Que eu seja mais Deus do que eu. É isso o que eu quero. O tempo todo eu acho que a gente precisa parar de brigar com a gente mesmo pra gente ser melhor.

Como foi que você descobriu que a internet poderia te deixar mais próxima dos fãs?
Adoro a internet. Acho que é um meio que pode trazer muita desgraça, porque a tecnologia pode fazer um mal arretado, mas que pra mim é uma invenção incrível. Você pode estar aqui e falar com uma pessoa que está lá na Oceania. É uma aproximação das pessoas. Ontem eu até escrevi isso no Twitter. Eu falei que o Caetano [Veloso] tinha escrito que o Haiti não é aqui, mas é aqui, é aqui do lado, e a gente não está fazendo nada. [É a cultura do] “eu odeio, eu odeio”. Isso pra mim que é imbecil. “Eu odeio o axé, eu odeio o pagode”. Isso é muito ridículo. Eu penso que é muito importante estar ali, para mim, porque eu divido muita coisa boa. Fora que eu colho muita coisa boa também. Estou diretamente com os meus fãs. Eu aprendi a abstrair também o que é ruim, porque vez ou outra tem um sangue de barata que bota o @claudialeitte para que eu leia que ele me odeia.

Mas você consegue não ler as coisas ruins?
Você lê, mas, no meu caso, percebi que existem pessoas que se incomodam com a minha existência, com o fato de eu existir, porque elas não gostam de mim. Eu não combino com elas e daí elas criam uma coisa, manifestam o ódio delas, ali, naquele momento. Então eu prefiro não ler mais. Mas eu já li muito e já fiquei muito triste, muito magoada. Hoje não leio mesmo. Não leio mesmo, bloqueio.

Que tipo de coisa te incomoda?
Maldade, maldade.

Você se envolve muito pouco em polêmicas sérias. Por outro lado, tudo a seu respeito vira notícia. Isso também não te incomoda?
Às vezes, sim. O Luciano Huck me disse uma coisa muito inteligente. Ele falou: “a notícia de hoje é o jornal que enrola o lixo de amanhã”. Então…

Mas ele mesmo fica respondendo as coisas no Twitter, brigando com as pessoas.
Todo mundo, né? Sempre vão existir essas coisas. Não tem pra onde correr.

Você está numa situação boa em termos de vendagem de discos. Tem poucos artistas que podem dizer o mesmo. A pirataria te preocupa?
Sinceramente, não. Eu fico entristecida. Acho que as pessoas não têm noção do mal que elas fazem e do que isso desencadeia. Porque não é uma coisa de estar economizando dinheiro no seu bolso. Não é só isso. Você está tirando o emprego de muita gente, está incentivando o crime organizado a continuar porque estão sendo bem sucedidos no mercado deles. Então, é uma coisa que me entristece mais do que me preocupa. É uma coisa de falta de informação. A gente não tem essa educação, não tem acesso a esse tipo de coisa e acho que eu poderia, e meus colegas também, contribuir mais na informação, dizendo: “Você não tem noção do que você está fazendo, não?” As pessoas morrem por causa disso. O cara que servia café na gravadora já foi exonerado há muito tempo por causa disso. E os divulgadores, marqueteiros etc. Hoje estão desempregados com um currículo profissional incrível. As pessoas não têm consciência disso. Conheço várias pessoas que tem lá no carro aparelhos de CD de última geração, camisa de marca e uma pilha de CD pirata no carro. Então não é a condição, é a falta de informação. O cara não se informa, então dane-se.

Você não pensa em parar, tirar férias da carreira, por um período longo?
Depois do Carnaval, sim.

Mas longo quanto? Tipo um ano? Ou como o U2, que já ficou 4 anos parado?
Você é louco… Tipo o Sting, que alugou uma casa, montou um puta estúdio lá dentro, foram todos pra lá e ficaram tipo mil câmeras filmando, curtindo a fazenda com seus amigos? Aí é mole fazer isso. E o U2, que tem muita grana, entra no estúdio e aí passa um mês com a família, volta e fica mais um mês gravando? Eles já têm um tempão de estrada. Eu ainda tenho sede. Não posso parar de fazer. Eu estava de férias, agora, e passei vinte dias parada. Fiquei em casa, sem internet, celular, nada. Eu posso ficar sem tudo isso, mas sem música e sem palco… Aí eu comecei a me inspirar, a ver o que eu ia fazer no trio novo, eu saí ligando pra todo mundo. E era só o sétimo dia… Por enquanto eu não tenho a mínima vontade de parar.

É por pressão do mercado?
Eu nunca pensei assim, nunca. Talvez eu pense assim um dia.

O que mais impressiona no vídeo em que você discute com o jornalista [de um site baiano de axé, em 2009] é que acabamos te vendo em uma situação incomum: completamente descontrolada. O que aconteceu?
Ele é especialista em falar mal de mim, é a profissão dele. Então tinha 100 ocorrências. Dessas, tive conhecimento de duas e tive vontade de matar ele. Ele disse que meu filho, com aquela cara dele, “ia estar na The Week”? Ou “não vacile que a homofóbica…” – eu não sou homofóbica! Não tenho preconceito com nada, mas me perguntaram se eu queria que meu filho fosse gay. Eu disse que não, que não queria, mas que se ele fosse eu ia amar ele de qualquer jeito. É meu filho, eu vou amá-lo, mas eu prefiro que ele me dê netos. E aí ele disse: “a homofóbica da Claudia Leitte tem que ficar calada, porque o filho dela com essa cara…” Ele pode me esculhambar como quiser, mas não pode falar assim do meu filho, da minha família, depreciando o tempo todo. Aí ele foi à minha coletiva de imprensa. O meu segurança barrou e eu falei que podia deixar ele entrar. Eu não vi o vídeo, não assisti, mas, ao que me parece, ele colocou o que convinha a ele na matéria. Ele estava me instigando, me instigando. Eu disse: “Bom, eu deixei você vir aqui, achei que você fosse fazer perguntas inteligentes. Você não é jornalista, você não tem nem educação, você não tem ética, você não gosta de mim”. E ele: “Não é que eu não goste de você, eu não gosto dos seus fãs”. Aí pronto, fiquei nervosa. O cara é muito cínico, disse que meu marido deu uma gravata nele. O Márcio [Pedreira, o marido] encostou ele na parede. Eu juro pela saúde do Davi. É um cara que não merece, não merecia que eu fizesse aquilo. Precisei tomar essa porrada para aprender que eu sou um produto e, infelizmente, às vezes tenho que sair de cena.

Você se arrepende de ter confrontado o jornalista?
Não, porque foi necessário para que mudasse isso em mim e acho que coloquei para fora o que eu queria.

Tem outra coisa que é muito falada que é essa eterna história da comparação com a Ivete Sangalo. Por um lado não é interessante para você que essa história continue, em termos de divulgação?
A energia disso é ruim, de modo que um cara que gosta de Ivete escreve mal de mim. Um cara escreveu lá: “a Ivete ficou gorda depois que teve filho, mas pode ficar gorda porque a gente espera você emagrecer, a gente te ama. E falando em axé, a Claudia Leitte…”. E completou com uma coisa bizarra, uma coisa que ele acha que eu fiz. Inventam umas mentiras para fazer essa história render, isso é feio. Não tem santo que me diga que isso é positivo pra alguém. Tipo essa história de que pedi para abrir o show da Lady Gaga só porque a Ivete abriria o da Beyoncé. Eu nem sabia que a Lady Gaga vai fazer um show no Brasil! Eu quero mais é beijar na boca!

Você já se pegou evitando alguma coisa para não alimentar essa história?
Já, mas não tem jeito. Porque o mundo é pequeno e as ideias do homem não são singulares. Então eu vou fazer uma coisa, ela vai fazer depois e vão dizer que ela copiou. Agora isso inverteu. De qualquer jeito é ridículo. Em um carnaval eu saí de deusa grega, só que a Ivete veio vestida de deusa grega. Quando eu vi que ela saiu com aquela roupa eu disse: “Não estou acreditando! Pronto, agora me lasquei”. As pessoas sempre vão comparar. Assim como fazem comigo, fazem com ela também. O mundo é assim. Então, cansei de ser sexy. [Sorri e faz sinal de que não, não cansou]

Vocês se encontraram pessoalmente algumas vezes?
Já, muitas vezes. Ela é muito querida. A Ivete foi para um show meu [quando eu ainda me apresentava] em bar e, quando acabou, foi pro camarim. Ela falou: “Você é muito afinada, sua voz é muito linda, você vai fazer sucesso”. Ela também conhece a família do meu marido e sempre foi muito carinhosa, alegre e doida daquele jeito. Encontrei ela na praia antes de eu ficar famosa. Ela se lembrou de mim, sentou e ficou uma hora e meia conversando. Muito carinhosa, sempre cheia de elogios. Eu sinto que não há nada [de ruim entre as duas]. Às vezes que a gente se cumprimenta é porque o filho nasceu, alguém se casou, é aniversário de alguém. Eu não tenho intimidade com Ivete, nenhuma mesmo. A gente não é amiga, mas a gente se quer bem. Muita gente vem falar mal da Ivete pra mim e eu quebro o pau, mesmo!

Você já teve a chance de falar com ela sobre isso?
Já, já… A gente fala quando se encontra: “Que coisa chata isso!”. E ela: “Não ligue não, não ouça”. A gente meio que compactua essa opinião.

Tem um vídeo que ficou famoso no YouTube: “Claudia Leitte roubando o microfone da Ivete”. Você já viu esse?
Eu já roubei o microfone de todo mundo! Só que para o de Ivete dão um destaque absurdo, claro.

Você fala: “Agora me entrevista que eu vou cantar” e pega o microfone.
Antes, ela me falou: “Você não está mais cantando, não? Você é louca!” Então eu pedi pra ela falar no microfone da Band [para onde Claudia transmitia o evento] pra eu dar uma canja aqui. Ela ficou sem entender nada… Não aparece que ela fala comigo, né? Mas eu assisti há muito tempo, nem quero ver hoje mais.

É engraçado.
[Risos] Eu imagino.

Sua música também serve de pano de fundo para o que acontece com as pessoas que vão se divertir no trio elétrico: muita pegação, uma coisa muito sexualizada. Ao mesmo tempo, você é uma pessoa casada, com filho. Como você vê essa distância entre as pessoas e você?
Eu tenho uma responsabilidade maior como cidadã, porque eu tenho um microfone na mão. Eu acho que as pessoas são responsáveis pelas atitudes delas e o que eu faço ali em cima pode não mudar nada. O cara vai fazer o que ele quiser no meu show, independente do que eu faça ali. É melhor que eu esteja ali cantando se eu pensar que eu sou um exemplo. Seria mais eficaz do que eu estar numa igreja cantando música gospel. “Eu estou levando as pessoas para a luz [risos]”. Mas eu não penso desse jeito. É muita pretensão eu achar que vou fazer um show e todas as pessoas vão ficar boas porque o meu exemplo é bom. Eu não sou um bom exemplo de nada, só tenho uma vida assim porque eu escolhi.

Mas o que você acha dessa cultura da pegação no carnaval?
Acho que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Quer ir, fique à vontade, vá. Tudo tem consequência na vida. Eu escrevo muito sobre isso no meu blog. Cheguei numa festa aqui em São Paulo, no ABC, e tinham umas meninas lindas vomitando no lado do carro. Isso é bizarro!

Algumas vezes essas coisas viram para você também. Você repreende os rapazes da plateia que falam absurdos para você. Mas você também projeta uma imagem sensual. Como você impõe esse limite entre a percepção do público?
Não gosto de vulgaridade e isso está explícito. Por exemplo: eu não gosto de biquíni fio-dental. Eu não usaria isso no palco porque não me sentiria à vontade, acho que isso seria ser excessiva no palco. E as opiniões das pessoas vão sempre divergir, vão olhar pra mim como um poço de sexualidade. Outras, como uma figura fashion. E outras vão dizer que eu sou brega. Isso vai acontecer ainda que eu esteja com a saia até a canela, lá embaixo. É normal. Acho que eu sou bem resolvida, então isso talvez me dê uma segurança para abusar da sensualidade. Sou mulher, a minha música é sensual: eu vou cantar axé sem colocar a perna de fora? Já fiz show em Campos do Jordão e estava, sei lá, seis graus e eu suei no palco, por causa da luz, da movimentação. Nem combina, né? É uma coisa tropical. Tenho que ser tropicaliente. Eu gosto disso, eu gosto da sensualidade, da vulgaridade não.

Fonte: Revista RollingStone

Você acha que Claudia Leitte levas as pessoas para a luz?

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Published in: on março 13, 2010 at 12:56  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Adorei! Estou muito agradecida!

  2. Parabéns pelo Blog! Muito bom!
    Abs

    • Obrigada, amigo! Pastor que tenho ORGULHO! Deus te abençoe. Beijos.


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